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Grandes cidades em risco de perder população para as “smart cities”
Grandes cidades em risco de perder população para as “smart cities”
15 de Setembro de 2020
A sustentabilidade urbana tornou-se numa das principais prioridades para os cidadãos de todo o mundo, com mais de 40% dispostos a abandonar as cidades onde vivem atualmente por causa dos índices de poluição, revela um novo estudo.

Os dados são do Capgemini Research Institute e indicam que, atualmente, e no contexto da Era Digital, a vida nas cidades parece não estar à altura das expectativas dos cidadãos.

Inquirindo 10.000 pessoas, mais de 300 autarcas em 10 países e envolvendo 58 cidades, o estudo Street Smart: Putting the citizen at the center of Smart City initiatives sublinha que uma larga maioria dos habitantes das grandes cidades está insatisfeita com a atual gestão dos locais onde vive, com o seu respetivo nível de desenvolvimento e que, por isso, considera mudar-se para outras cidades onde a transformação digital esteja mais avançada.

Quarenta por cento dos inquiridos em todo o mundo afirmou que poderá abandonar a sua atual área de residência no curto prazo, devido a uma série de motivos que alimentam o seu nível de descontentamento, e entre os quais se destacam as “frustrações digitais”.

Mais de metade dos cidadãos inquiridos (58%) consideram que as Smart City são sustentáveis e que oferecem serviços urbanos com níveis de qualidade mais elevados (57%). Isto explica porque é que mais de um terço dos inquiridos (36%) está disposto a pagar mais para ter acesso a uma existência mais satisfatória nas suas cidades.

Existem, no entanto, grandes desafios a ultrapassar a nível da implementação de projetos smart city, sobretudo no que diz respeito aos dados e ao financiamento dos mesmos.

A Capgemini constatou que apenas um em cada dez dos autarcas inquiridos afirmou estar em fase avançada de implementação de iniciativas smart cities, e menos de um quarto (apenas 22%) começou a desenvolver iniciativas smart cities.

“Este é um grande desafio, sobretudo tendo em conta que as estimativas apontam para que mais de dois terços da população mundial irá viver em cidades até 2050, e que o número das grandes metrópoles urbanas passará de 33 em 2030, para 43 em 2050”, nota a CapGemini. Além disso, a maioria dos cidadãos em todo o mundo revelaram o desejo de viver em cidades inteligentes: motivo pelo qual as cidades deverão acelerar os seus processos de transformação.

A chave para melhorar a vida nas cidades

Segundo o estudo, a sustentabilidade está a adquirir uma importância crescente para os habitantes das cidades. Os cidadãos consideram que a poluição (42%), ou a ausência de iniciativas sustentáveis (36%) são motivos de forte preocupação e que os poderão levar a abandonar as cidades onde vivem atualmente.

Apesar disto, 42% dos autarcas afirmou que nos últimos três anos se verificou um atraso no desenvolvimento das iniciativas de sustentabilidade, e 41% apontou o risco de, nos próximos 5 a 10 anos, as suas cidades poderem vir a tornar-se insustentáveis. Esta será uma das 5 principais consequências resultantes da não adoção de tecnologias digitais.

As iniciativas smart cities podem gerar melhorias nos serviços urbanos a todos os níveis. No entanto, segundo o estudo da Capgemini este método de avaliação é redutor e não tem em conta a perceção dos habitantes das cidades, especialmente no que diz respeito ao seu nível de satisfação em termos da qualidade de vida que as iniciativas smart city lhes proporcionam.

Os cidadãos que usam as iniciativas smart city estão mais satisfeitos com o nível de qualidade de vida que as suas cidades lhes proporcionam. Por exemplo, 73% dizem estar mais satisfeitos com os fatores relacionados com a saúde, como por exemplo, a qualidade do ar. Este valor cai, no entanto, drasticamente para os 56% entre os inquiridos que não utilizaram iniciativas smart cities.

Mais de um terço dos cidadãos (36%) estão dispostos a pagar mais para viverem em cidades inteligentes. Este número sobe entre os cidadãos mais jovens e mais ricos: 44% entre os millennials, 41% entre os inquiridos da Gen Z e 43% entre os inquiridos a ganhar mais de 80 mil dólares.

Dados e financiamento: os obstáculos à implementação de iniciativas smart city

Embora as smart cities possam resolver alguns dos desafios que as cidades tradicionalmente enfrentam, como transportes públicos mais eficientes e mais segurança, a sua implementação enfrenta obstáculos evidentes. Os dados são fundamentais para garantir a otimização das cidades inteligentes. Porém, 63% dos cidadãos em todo o mundo afirmam que a privacidade dos seus dados pessoais é mais importante do que o acesso a serviços urbanos de qualidade.

Entretanto, quase 70% dos autarcas afirmou que as fontes de financiamento para os seus orçamentos de implementação de iniciativas smart cities constituem um grande desafio, e 68% revelou ter dificuldade em aceder e construir as plataformas digitais necessárias para desenvolver iniciativas smart cities. Por outro lado, 54% dos cidadãos inquiridos consideraram que as empresas BigTech têm capacidade para fornecer serviços urbanos melhores do que aqueles que são atualmente prestados.

“É recomendável que a abordagem às iniciativas das smart cities comece por pequenos projetos perfeitamente delimitados e que possam ser facilmente testados, antes de se avançar para a implementação, e em que seja possível demonstrar o seu impacto e viabilidade financeira para obter os financiamentos necessários”, afirma Matthias Wieckmann, Head of Digital Strategy, City of Hamburg. “Para os autarcas que estiverem nas fases iniciais da transformação digital, soluções mais pequenas serão também mais propícias ao desenvolvimento mais rápido da jornada, do que as grandes soluções globais. Por outro lado, é mais fácil encontrar aceitação, apoio e financiamento para este tipo de projetos”.

Iniciativas Smart city ajudam a gerir a crise da COVID-19

As Smart Cities contribuem para uma melhor gestão das situações de pandemia. Esta é uma das conclusões a que a Capgemini chegou neste estudo, ao verificar que os autarcas estão a recorrer a várias tecnologias para responderem aos desafios colocados pela COVID-19.

Em Roma, os funcionários do aeroporto estão a usar capacetes inteligentes com realidade aumentada e scanners térmicos incorporados que lhes permitem rastrear vários visitantes em simultâneo, mantendo a distância de segurança.

Para a Capgemini, acelerar a implementação das cidades inteligentes requer uma colaboração estreita entre os vários interessados. Uma cidade inteligente não pode ser criada só com a implementação e o financiamento de tecnologias inovadoras. “É fundamental haver uma profunda colaboração entre todas as partes envolvidas no projeto – autarcas, cidadãos e terceiras entidades, como startups, universidades e empresas de capital de risco.

No âmbito deste estudo, a Capgemini recomenda que os autarcas optem por uma abordagem assente em três fases:

 

  • Criar uma visão para as smart cities assente na sustentabilidade e na resiliência;
  • Capacitar os autarcas para que possam agir como empreendedores e, em simultâneo, garantir a proteção dos dados e a confiança;
  • Desenvolver uma cultura de inovação e colaboração que privilegie os cidadãos como peça central do ecossistema das cidades.

 

“A perceção e o nível de desenvolvimento das cidades inteligentes passou a ser um importante fator diferenciador para os cidadãos. Tornou-se crucial para os responsáveis pelo planeamento e para os autarcas perceberem que os cidadãos são o ativo mais inteligente que uma cidade pode possuir e que, por isso mesmo, devem colocá-los no centro das iniciativas das smart cities”, explica Pierre-Adrien Hanania, Global Offer Leader for AI in the Public Sector da Capgemini. “As cidades devem trabalhar para garantir que as iniciativas baseadas em tecnologias proporcionem aos seus cidadãos as experiências e a qualidade de vida que estes procuram. Isto permitir-lhes-á conter o êxodo dos seus habitantes para outras cidades”.

O estudo está disponível para download aqui.